A conjuntura internacional que o futuro ocupante do Palácio do Planalto encontrará nos próximos meses exigirá profundo pragmatismo e habilidade diplomática. Segundo especialistas em relações internacionais, para além de eventuais alinhamentos ideológicos automáticos, a geopolítica global passará por transformações profundas impulsionadas pelas eleições legislativas nos Estados Unidos, pleitos presidenciais e parlamentares na Europa e na América Latina. É que, para além de possíveis alinhamentos internacionais "automáticos" — Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com alguns partidos de esquerda e seus aliados atuais, e Flávio Bolsonaro (PL) mais próximo de governos de direita — é um consenso que a geopolítica atravessará mudanças profundas já no ano que vem.
O "Desafio de Janus" e o dilema entre EUA e China
A rivalidade econômica e tecnológica entre Washington e Pequim coloca o Brasil no centro de uma encruzilhada estratégica. O país mantém a China como seu principal parceiro comercial — responsável por quase 28,7% das exportações brasileiras e investimentos expressivos —, ao mesmo tempo em que lida com as pressões do governo de Donald Trump, que retornou à Casa Blanca impondo tarifas de importação de 35% e endurecendo o discurso contra a influência chinesa na América Latina. Trump, que voltou ao poder em janeiro do ano passado, teve forte impacto na política interna brasileira desde então: elevou as tarifas de importação (hoje em 35%) aos produtos nacionais, classificou as duas maiores facções criminosas do Brasil — o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) — como "terroristas", abrindo a possibilidade de incursões militares locais, e distribuiu falas dúbias sobre Lula — de dizer que "gostou dele", em setembro de 2025, a chamá-lo de "volátil" e declarar que "não poderia se importar menos com ele", dois meses atrás.
Para analistas como Feliciano de Sá Guimarães, diretor do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), o Brasil vive o "desafio de Janus" — uma alusão ao deus romano de duas faces —, em que cada sinalização de coerção americana leva o governo brasileiro a buscar parcerias com Pequim, retroalimentando um ciclo de pressões externas que exigirá uma estratégia trilateral robusta para evitar a captura geopolítica por qualquer uma das superpotências. Mas, para Feliciano de Sá Guimarães, o verdadeiro dilema do Brasil tem outro nome. "É o 'desafio de Janus'", nomeia ele, em referência ao deus romano com duas faces, uma para frente e outra para trás.

América do Sul fraturada e incertezas na Argentina
No âmbito regional, o próximo chefe de Estado herdará um continente politicamente fragmentado, onde a maioria dos governos é alinhada à direita e iniciativas de integração como o Mercosul enfrentam estagnação. "Vai se deparar com um continente fraturado", observa Canuto, apontando que, dos 12 países do continente, sete são governados, neste momento, por partidos de direita, contra cinco pela esquerda. É por isso que as iniciativas de integração estão paralisadas, incluindo o próprio Mercosul, principal bloco econômico da região. A criação do "Escudo das Américas", coalizão militar regional que conta com vizinhos fronteiriços, acabou por isolar parcialmente o Brasil em termos de segurança cooperativa [cite: "Essa é, na verdade, uma aliança anti-Brasil", diz Sá Guimarães, do Cebri.]. Além disso, as eleições na Argentina no ano seguinte adicionarão um termômetro decisivo para medir se o eixo regional seguirá padrões de alinhamento com Washington ou se resgatará a capacidade de negociação coletiva. "O importante", prossegue ele, "é que essa Argentina de 2027 funcionará como termômetro duplo da posição brasileira no cenário global, porque ou esse eixo de alinhamento a Trump se consolida como um padrão no Cone Sul ou o Mercosul se fortalece como um instrumento de negociação coletiva".
Inquietações e reviravoltas na Europa
Por fim, o cenário europeu em ebulição — com eleições presidenciais na França, guinadas à direita em países como Itália e Alemanha, e indefinições sobre o papel da União Europea como polo autônomo de poder — traz um adicional de incerteza. Para os analistas, independentemente de quem saia vitorioso das urnas entre Lula e Flávio Bolsonaro, a condução externa do Brasil exigirá resiliência institucional e foco estrito na preservação da soberania nacional diante de um mundo cada vez mais fragmentado e imprevisível. "Ao se aproximar dos Brics, da Europa e da China com uma agenda própria, o Brasil mostrou a Washington que pretende seguir uma agenda de soberania nacional. Os Estados Unidos olham isso com desconfiança, para além do governante de ocasião, e vão buscar intervenções mais diretas ou então buscar garantir os interesses deles por outros meios", sentencia Leite.
Fonte: BBC













